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Tu És o Glorioso - 2

Vontade, luta e superação: a conquista da Copa Conmebol em 1993
Atualizado em 27-01-2015, 11h00

Por Auriel de Almeida - Historiador

Pelas fileiras do Botafogo, todos sabem, já passaram craques lendários como Garrincha, Nilton Santos, Didi, Jairzinho, Zagallo, Paulo Cézar Caju, Mendonça, Gérson, Heleno de Freitas... Mas a história do clube também foi construída por jogadores menos conhecidos como William Bacana, Sinval, Eliel e seus companheiros do time de 1993, que com garra, dedicação e o comando do técnico (e ídolo) Carlos Alberto Torres ajudaram o Glorioso a conquistar a Copa Conmebol, seu primeiro título internacional organizado pela federação dirigente do futebol da América do Sul.

O ano começou cheio de incertezas para o Botafogo. Após um decepcionante vice-campeonato brasileiro em 1992 e um desmanche que mandou embora atletas como Renato Gaúcho, Valdeir, Válber e Carlos Alberto Santos, o clube montou um time considerado modesto, com jogadores quase desconhecidos, deixando a torcida sem grandes pretensões para a temporada.

Na época, apenas os campeões do Brasileirão e da Copa do Brasil se classificavam para a Taça Libertadores do ano seguinte. Do vice-campeão nacional até o quarto colocado, posições que hoje garantem lugar no maior campeonato das Américas, os clubes ganhavam vaga na Copa Conmebol, antecessora da atual Copa Sul-Americana. Mas quando todos esperavam que o Botafogo só fizesse figuração na competição, a Estrela Solitária brilhou com força.

Após passar por Bragantino, Caracas e Atlético Mineiro - numa semifinal emocionante onde o Glorioso reverteu uma desvantagem de 3 a 1 em Minas Gerais vencendo o Galo por 3 a 0 no Caio Martins - o Botafogo chegou à final contra os uruguaios do Peñarol. E após o primeiro jogo, um empate de 1 a 1 em Montevidéu, os botafoguenses estavam ainda mais confiantes: "Sim, nós podemos". A festa estava marcada para o Maracanã.

O JOGO

Uma confusão na venda de ingressos culminou na abertura dos portões do estádio, e os aproximadamente 70 mil botafoguenses que tomaram o Maracanã vaiaram o anúncio do público pagante oficial – pouco mais de 26 mil.

Os primeiros 45 minutos foram de muita pressão do Botafogo, que pecava na parte técnica mas sobrava na disposição. Eliel e Sinval bombardeavam o goleiro Rabajda, que salvou o time em vários lances. Mas na única chance do Peñarol, saiu o gol: Perdomo cobrou um lateral direto para a área, a zaga cortou mal e a bola sobrou para Bengoechea. O craque da Seleção Uruguaia chutou forte, sem defesa, fazendo 1 a 0 para os carboneros.

A desvantagem parcial fez os alvinegros voltarem cabisbaixos para o vestiário, sentindo o peso das críticas que afirmavam que aquele time já havia chegado longe demais. Mas o treinador Carlos Alberto Torres tratou de injetar confiança na equipe, aos berros: “Estamos melhores no jogo e vamos virar! Vamos virar!”.

Com os ânimos renovados, o Botafogo voltou com o mesmo ímpeto no segundo tempo, tomando conta da partida. E o empate veio logo aos sete minutos. Após sofrer um carrinho criminoso, Eliel cobrou falta de longe, no canto direito de Rabajda, enganado pelo quique da bola: 1 a 1. E em outra cobrança de falta, dessa vez de Sinval, veio a virada: 2 a 1, num chute maravilhoso do atacante, quase da intermediária.

Em desvantagem, o Peñarol trocou o futebol pela violência, com a conivência do árbitro argentino Francisco Lamolina. Em meio a um festival de carrinhos frontais e pontapés desleais, muitos cartões amarelos e nenhum vermelho. A única expulsão do jogo, ironicamente, foi a do técnico Carlos Alberto Torres, por "reclamar demais" da truculência adversária. E para dar um pouco mais de drama, nos acréscimos, Otero recebeu um lançamento preciso, entrou livre na frente de William Bacana e fez: 2 a 2. Empate que levou a partida para os pênaltis.

Sinval abriu a série de penalidades. E com um chute fraco, espalmado por Rabajda, deixou a torcida apreensiva. Mas logo esta se tranquilizaria, com a defesa de William Bacana no chute de Ferreira. Nas cobranças seguintes, Suélio, Da Silva e Perivaldo marcaram, Gutiérrez chutou para fora e André fez mais um para o Bota: 3 a 1, e o título só dependia de uma defesa de William Bacana.

Na cobrança, o zagueiro De Los Santos, um dos mais violentos da partida. O uruguaio correu e chutou no canto direito, com muita força. William pulou no canto certo, se esticou todo e... não tocou na bola. Só que a mesma explodiu na trave: o Botafogo era campeão da Copa Conmebol! Até hoje, é o único título internacional conquistado por um carioca no Maracanã.

Botafogo x Ponte Preta
Em 2013, para celebrar os 20 anos da conquista, heróis foram homenageados pelo Botafogo

Confira vídeo da TV do Fogão com a homenagem e os lances decisivos do título!




==Ficha técnica==

Botafogo 2 x 2 Peñarol
Local: Estádio Jornalista Mário Filho (Maracanã)
Quinta-feira, 30 de setembro de 1993
Copa Conmebol Sul-Americana – 2º jogo da Final

Botafogo: William Bacana, Perivaldo, André Santos, Cláudio Henrique e Clei (Eliomar); Nélson, Suélio, Marcelo Costa e Aléssio (Marcos Paulo), Sinval e Eliel.
Técnico: Carlos Alberto Torres.

Peñarol: Rabajda, Tais, Gutiérrez, De Los Santos e Da Silva; Baltierra, Perdomo (Ferreyra), Bengoechea (Rehermann) e Dorta; Otero e Rodríguez.
Técnico: Gregorio Pérez.

Árbitro: Francisco Lamolina (ARG).

Gols: Bengoechea aos 35/1ºT; Eliel aos 7/2oT, Sinval aos 22/2ºT e Otero aos 46/2ºT

Pênaltis: Botafogo 3-1 Peñarol (Suélio, Perivaldo e André Santos para o Botafogo; Da Silva para o Peñarol)

Público: 70.000 (aproximadamente)

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