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Tu És o Glorioso - 12

Após o título de 1910, Botafogo passa a ser conhecido como O Glorioso
Atualizado em 07-04-2015, 19h10

Por Auriel de Almeida - Historiador

O Campeonato Carioca de 1910 é um dos títulos mais importantes do clube. Não só por ser o primeiro campeonato conquistado pelo Botafogo com sua equipe principal (o título de 1907 foi "decidido" décadas depois, na justiça), mas por ter originado a alcunha que até hoje o acompanha: "O Glorioso".

O time estreou mal naquele campeonato, com uma derrota doída para o America (4 a 1), mas logo engrenou: venceu na sequência o Riachuelo (9 a 1), Fluminense (3 a 1), Haddock Lobo (7 a 0) e Rio Cricket (6 a 0), terminando o primeiro turno empatado com America e Fluminense. No segundo passou pelo Rio Cricket (5 a 0), Riachuelo (15 a 1) e America (3 a 1), recebendo após cada vitória acachapante telegramas de congratulações de atletas rivais, torcedores e admiradores do esporte endereçadas simplesmente “Ao Glorioso”.

Na penúltima rodada o Botafogo, cheio de confiança, enfrentaria o seu grande rival Fluminense com dupla vantagem: jogava em casa e tinha um ponto perdido a menos do que o Tricolor. Uma vitória consagraria matematicamente o Alvinegro como campeão, e mesmo o empate deixaria o clube em posição confortável, pois dificilmente perderia ou empataria o jogo final contra o lanterna Haddock Lobo. O Fluminense precisava da vitória a qualquer custo, pois assim ultrapassaria o Botafogo, e mesmo que não garantisse a taça naquela noite era pouco provável uma derrota nos últimos compromissos – Riachuelo e Haddock Lobo.

A partida entre os maiores clubes da cidade era uma autêntica final.

O JOGO

Aproximadamente às três e meia da tarde o árbitro A.W. Hassel deu início à partida, e o Botafogo rapidamente dominou o jogo, envolvendo a defesa tricolor com passes rápidos e precisos e obrigando o goleiro Waterman a realizar defesas difíceis. Logo aos dez minutos o gol do Fluminense seria vazado, na primeira vez de muitas: após bom passe de Lauro Sodré, Abelardo de Lamare chutou com força, marcando 1 a 0 para o Alvinegro, em meio aos aplausos da eufórica torcida.

O Tricolor tentou reagir e aumentou sua ofensividade, mas o Botafogo, melhor em campo, continuou mais perigoso. Tanto que após um dos avanços sem resultado do Fluminense os alvinegros emendaram um contra-ataque quase mortal, obrigando Waterman a colocar para escanteio um chute violento. Após esse lance o Botafogo conquistou corner sobre corner, chegando muito perto do segundo gol, com a defesa tricolor salvando todas.

Quando o Fluminense conseguiu voltar ao ataque, viu o meia Gallo perder a bola para o alvinegro Mimi Sodré, que rapidamente lançou-a para Lulú Rocha no meio de campo e correu para o ataque. Lulú avançou alguns passos, tocou para Lauro Sodré, que correu até a linha de fundo e cruzou para seu irmão Mimi, que em um pique impressionante já estava no campo adversário. Mimi apenas escorou de cabeça para Abelardo, que fuzilou de primeira: 2 a 0 para o Botafogo. Torcedores gritavam e jogavam seus chapéus no ar, e mais uma goleada alvinegra parecia se desenhar.

Os tricolores sentiram o golpe, e em pouco tempo os botafoguenses aumentariam a conta, com facilidade: após chutão da zaga do Flu para o meio de campo, Lulú conseguiu ficar com a bola e tocou para Mimi, que passou para Emmanuel cruzar para Abelardo marcar mais um gol: 3 a 0. Com o título que parecia bem garantido, alguns torcedores não se contentavam mais em apenas gritar e invadiram o campo para comemorar o tento. Os botafoguenses pareciam não aguentar o desfecho da partida para soltar o grito de campeão, entalado na garganta há três temporadas.

Recomeçado o jogo, o Botafogo não diminuiu o ritmo. O time parecia querer marcar mais três, quatro, cinco gols no então arquirrival. O Fluminense estava desorientado, e Waterman salvava o seu clube com defesas difíceis, minuto após minuto, e nas vezes em que não conseguiu chegar à bola foi salvo pela trave. E os tricolores deram graças quando Lulú Rocha, atrapalhado, recuou com força demais uma bola para o goleiro Coggin, fazendo gol contra. Só assim eles conseguiriam marcar no desastroso primeiro tempo, que terminou com o placar até pequeno de 3 a 1.

A única chance do Fluminense no segundo tempo era jogar o time todo ao ataque. Os tricolores se empenhavam de forma desorganizada para diminuir o prejuízo, mas o único que conseguiam era cometer faltas de ataque. O Botafogo, tranquilo, se defendia com classe, e parecia esperar um vacilo fluminense para dar o golpe mortal. E o mesmo veio quando Edgard Pullen travou um avanço tricolor e deu um chutão para o ataque: Mimi acompanhou a trajetória, marcado, conseguiu se livrar do adversário com um jogo de corpo, recebeu a bola, driblou o seu marcador na entrada da área e, desequilibrado, caindo de joelhos, conseguiu dar um toquinho para Abelardo, que ao invés de chutar preferiu passar ao lado para Décio ampliar com tranquilidade: 4 a 1.

O Botafogo voltou a aumentar o seu volume de jogo, embora o Flu não esmorecesse, especialmente com o meia Mutzenbecher, o mais insistente dos tricolores. E quando Dinorah travou um chute fraco de Gilbert Hime e lançou para Mimi Sodré receber, avançar e marcar o quinto gol, o Fluminense finalmente se entregou. O título estava nas mãos do Bota, e faltando apenas quinze minutos para o fim não havia mais tempo para mudar a história.

Com o jogo já em ritmo lento, ainda houve tempo para que o Alvinegro, no finzinho, aumentasse o placar: Rolando de Lamare interceptou um passe de Mutzenbecher, que ainda tentava outro gol de honra, e passou para Mimi Sodré atacar. Antes que Félix impedisse o avanço, Mimi conseguiu achar Décio bem colocado na área, que recebeu o passe do colega e chutou colocado: 6 a 1.

À espetacular goleada alvinegra, mais uma, que ainda por cima garantiu o título, novas congratulações endereçadas “Ao Glorioso” foram feitas. E desta vez não foram apenas em telegramas, mas em todos os jornais, que a partir de então passaram a se referir ao Botafogo pela lisonjeira alcunha. Nas ruas, os torcedores d’O Glorioso se esbaldavam de alegria, e o comentário predileto dos fãs alvinegros sobre a grande vitória era de que o placar moral da partida fora 7 a 0 para o Botafogo – afinal, o único gol marcado para o Fluminense fora obra de um jogador alvinegro.

E para manter a rotina, na semana seguinte o Glorioso goleou o Haddock Lobo, seu último compromisso, por elásticos 11 a 0, fechando assim a competição com chave de ouro. Em 10 jogos foram 66 gols marcados, uma média de gols absurda que jamais seria igualada por outro campeão carioca.

O Campeonato Carioca de 1910 tornou-se histórico não só para os botafoguenses como para o mundo do futebol. Em uma reportagem sobre o Clássico Vovô, feita quase vinte anos depois, o jornal “O Imparcial” afirmava que “o futebol teve o seu grande incentivador nessa rivalidade”, lembrando que a cativante luta dos jovens jogadores alvinegros para “tirar o Fluminense do pedestal” ajudou a popularizar o esporte entre os cariocas, envolvidos pelo enredo heroico que empolgou não só a cidade como todo o Brasil.

Na parte técnica a conquista foi considerada um marco para o futebol por jornalistas como Mário Filho, que defendia que o Botafogo tinha revolucionado a forma de jogar bola no país. Para ele, após 1910 o futebol deixou de ser um jogo de gentlemen bigodudos e tornou-se um esporte rapaz, vigoroso e encantador. Por tudo isso, honras ao Glorioso.
 
== Ficha técnica ==

Domingo, 25 de setembro de 1910
Botafogo 6 x 1 Fluminense – Local: Campo da Rua Voluntários da Pátria
Campeonato Carioca – 2º Turno

Botafogo: Coggin, Edgard Pullen e Dinorah; Rolando de Lamare, Lulú Rocha e Lefèvre; Emmanuel Sodré, Abelardo de Lamare, Décio Viccari, Mimi Sodré e Lauro Sodré. Técnico: Ground Committeé.

Fluminense: Waterman, Ernesto Paranhos e Félix Frias; Nery, Gallo e Mutzenbecher; Millar, Oswaldo Gomes, Edwin Cox, Gilbert Hime e Alberto Borgerth. Técnico: Ground Committeé.

Árbitro: A. W. Hassel, sócio do Rio Cricket.
Gols: Abelardo de Lamare (3) e Lulú Rocha (contra) no 1ºT; Décio Viccari (2) e Mimi Sodré no 2ºT.

Público: 4.000 (aproximadamente)

Botafogo de Futebol e Regatas