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Tu És o Glorioso - 8

Em 2010, cavadinha e defesa de pênalti garantem título - e levam torcida à loucura
Atualizado em 10-03-2015, 17h00

Por Auriel de Almeida - Historiador

Quando conquistou a Taça Guanabara de 2010, sobre o Vasco, o Botafogo garantiu vaga na sua quinta final de estadual seguida - fora campeão em 2006 e vice de 2007 a 2009. E quando chegou à decisão da Taça Rio, contra o Flamengo, viu a chance de liquidar a fatura de vez.

Visto com desconfiança pela imprensa esportiva no início do ano, o Glorioso já era respeitado àquela altura: a dupla de ataque formada por Loco Abreu e Herrera mostrava serviço e o goleiro Jefferson, que voltara ao Botafogo no ano anterior, havia devolvido à torcida a confiança na posição. E ainda havia o técnico Joel Santana, "especialista" em ganhar estaduais. Com tudo isso, não havia favorito na final, mesmo que o adversário fosse o atual campeão brasileiro.

Além do título, estava em jogo a superação de traumas passados. O Botafogo havia perdido as últimas três finais justamente contra o Flamengo. Era dia de revanche.

VÍDEO: OS GOLS DA FINAL

 

 

O JOGO

O jogo foi intenso, e o clima de ansiedade era perceptível no ar. Se o Botafogo lutava pelo resgate da honra, o Flamengo também tinha uma motivação extra pelo título – conquistar um inédito tetracampeonato carioca, marca já alcançada pelo time da Estrela Solitária.

O Alvinegro começou a partida mais tranquilo, valorizando a posse de bola e marcando bem o adversário. O Rubro-Negro, com excesso de vontade, com menos de 15 minutos já tinha três atletas com cartão amarelo. A “Dupla Mercosul”, formada pelos botafoguenses Herrera e Loco Abreu e o “Império do Amor”, pelos flamenguistas Vágner Love e Adriano, recebiam poucas bolas no ataque, e as oportunidades eram raras.

A primeira grande chance do jogo foi do Botafogo, com Renato Cajá, que cobrou bem uma falta que o goleiro rival espalmou para a linha de fundo. Na cobrança do escanteio, Ronaldo Angelim segurou Fábio Ferreira dentro da área, em penalidade bem apitada por Gutemberg de Paula. E Herrera foi para a bola.

A cobrança foi cercada de expectativa. Duas das três finais de Estadual que o Glorioso perdeu para o Flamengo foram justamente nos pênaltis. E o goleiro rubro-negro fora o grande herói nessas ocasiões, defendendo inclusive uma penalidade no tempo normal da decisão de 2009. Mas para alívio da torcida Herrera cobrou forte, no meio, e colocou o Botafogo na frente do placar.

Precisando ainda mais da vitória o Rubro-Negro tentou pressionar o rival, sem eficiência. Os botafoguenses eram absolutos na marcação, impedindo que os adversários criassem. Mas aos 44 minutos, no único momento de desatenção alvinegra, o Fla conseguiu o empate. Michael passou por Fahel pela direida e cruzou alto, pegando a zaga do Botafogo desarrumada. Adriano cabeceou para o chão e a bola quicou e sobrou para Williams, que tocou de cabeça para o gol. Jefferson até conseguiu tirar, mas a redonda caiu nos pés de Vágner Love, que só teve o trabalho de empurrar quase em cima da linha: 1 a 1, no finzinho da etapa.

Diferentemente de anos anteriores, o empate no apagar das luzes não descontrolou os alvinegros. Embora o Flamengo fosse melhor no segundo tempo, o Botafogo seguiu concentrado, impedindo que os ataques do “Império do Amor” resultassem em gol. E sempre jogando com calma, esperando o momento certo para atacar, veio o lance inesquecível.

Tudo começou com mais um pênalti, de Maldonado em Herrera, aos 26 minutos. E dessa vez, na cobrança, o uruguaio Loco Abreu. Herrera já havia mostrado que o goleiro do Rubro-Negro não era invencível, mas mesmo assim era bom não abusar da sorte. Ou era? Loco Abreu achava que sim. O corajoso, ou talvez irresponsável craque alvinegro correu para a bola e deu um toque suave, cruel, de cavadinha. E enquanto o arqueiro adversário, algoz dos anos anteriores, caía desmoralizado de bunda no chão, a pelota subiu e desceu devagarzinho, bem no meio do gol, tocando caprichosamente o travessão superior antes de entrar. Era o gol do título, o gol do alívio, o gol que transformava o fantasma do rival em um mero espantalho.

CARIOCA 2010/BOTAFOGO X FLAMENGO
Loco Abreu comemora o gol histórico com o goleiro do Flamengo ao fundo (Foto: AGIF / BFR)


E para completar as pazes com os pênaltis, ainda deu tempo do Bota experimentar o outro lado da moeda, quando aos 38 minutos Fahel fez falta em Ronaldo Angelim dentro da área. Na cobrança o craque Adriano, que jamais havia desperdiçado uma penalidade - até aquele dia. Jefferson, especialista em pegar pênaltis, pulou com categoria no canto esquerdo para confirmar o título do Glorioso e inscrever aquela final de lavar a alma na história.

CARIOCA 2010/BOTAFOGO X FLAMENGO
Jefferson: herói ao defender pênalti cobrado por Adriano (Foto: AGIF / BFR)


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==Ficha técnica==

Domingo, 18 de abril de 2010

Botafogo 2 x 1 Flamengo – Local: Estádio Jornalista Mário Filho (Maracanã)

Campeonato Estadual do Rio de Janeiro – Final do 2º Turno (Taça Rio)
 
Botafogo: Jefferson, Fahel, Antônio Carlos e Fábio Ferreira; Alessandro, Leandro Guerreiro, Túlio Souza (Caio), Renato Cajá (Edno) e Somália (Marcelo Cordeiro); Herrera e Loco Abreu. Técnico: Joel Santana.

Flamengo: Bruno, Leonardo Moura (Petkovic), David, Ronaldo Angelim e Rodrigo Alvim; Maldonado, Toró (Vinícius Pacheco), Williams e Michael (Fierro); Vágner Love e Adriano. Técnico: Andrade.

Árbitro: Gutemberg de Paula Fonseca (RJ).

Gols: Herrera 23/1ºT e Vágner Love 44/1ºT; Loco Abreu 26/2ºT.

Expulsões: Maldonado e Herrera.

Público: 50.303